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Ep. 088·3 mar 2025·69 min

A falta de talento tecnológico em Portugal

com Francisco Almada-Lobo, Critical Manufacturing

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Sobre esta conversa

Francisco Almada-Lobo trabalhou 12 anos na Kimonda, a fábrica portuguesa de semicondutores que era número 3 mundial. Quando entrou em insolvência em 2009, geria uma equipa de 150 engenheiros. Formado em MBA corporativo e confortável na hierarquia, viu-se obrigado a pensar diferente: com a mulher grávida do terceiro filho e aos 36 anos, converteu as economias num negócio de raiz.

A Critical Manufacturing nasceu da necessidade: durante a crise, Francisco e os melhores engenheiros da Kimonda tinham uma expertise muito específica — sistemas de gestão de produção para fábricas — e nenhum cliente. Levou dois anos a desenvolver o produto sem receita. Os investidores de risco não sabiam como enquadrar a empresa: era demasiado hardware para os fundos de software, demasiado software para os fundos de manufatura. Só a Critical Software (a antiga fornecedora, empresa portuguesa que trabalhou para a NASA) acreditou. Mesmo com essa aposta, o produto funcionava apenas quando Francisco assumiu a liderança — uma coincidência que o próprio reconhece com humor retrospectivo.

Hoje, Critical Manufacturing emprega 650 pessoas (450 em Portugal) e diversificou-se dos semicondutores para eletrónica, dispositivos médicos e equipamento industrial. Mas Francisco é claro sobre o que falta em Portugal: não há escala. Tentou vender localmente e desistiu — as empresas nacionais estavam presas a lógicas de investimento público e tangibilidade, sem capacidade para absorver inovação em software. Compradores de soluções enterprise precisam de cheques muito grandes. Nós não temos nem dez fábricas para formar um cluster que faça sentido.

Sobre a falta de engenheiros: Portugal tem nome, mas poucos. Os que cá ficam muitas vezes alimentam operações de serviços de multinacionais estrangeiras, não produtos próprios. A escassez foi tanta que há um ano Critical Manufacturing comprou empresas na Malásia e no México apenas para ter capacidade de contratar 20 engenheiros por mês. É um sintoma de um país que não consegue competir em preço, nem em equipamento fabril de topo — e que ainda não aproveitou a revolução do software industrial para dar o salto que poderia dar. A Indústria 4.0 prometia agentes autónomos e fábricas inteligentes. 20 anos depois, ainda estamos à espera. Os números mundiais de produtividade dizem-no.


Neste episódio falamos com o Francisco Almada-Lobo, founder e CEO da Critical Manufacturing, uma das mais relevantes empresas tecnológicas em Portugal.

Falamos sobre os tempos anteriores ao início do ecossistema em que uma empresa não se chamava startup e os temas de investimento e MVP e bootstrapping não eram tão conhecidos.

Falamos sobre o que falta a Portugal em termos de talento e a razão pela qual Portugal não é um pólo tecnológico maior e mais relevante.

E sobre a guerra dos chips que está a acontecer entre USA e China

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