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Ep. 100·2 jun 2025·67 min

Mudar a advocacia

com André Dionísio, ByTheLaw

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Sobre esta conversa

André Dionísio tem 25 anos e é co-founder da ByTheLaw, uma startup de legal tech focada em gestão de conhecimento para escritórios de advogados. Fez Engenharia Física durante um ano, tomou um gap year (que coincidiu com a pandemia), e depois entrou num novo curso de Engenharia e Ciência de Dados na Universidade de Coimbra, onde também fez uma pós-graduação em Direito. Os co-founders são Tiago Sousa (física teórica) e Nuno Cabral (sistemas inteligentes).

Tudo começou na aula. Uma professora brasileira falava sobre o mercado de legal tech em São Paulo—muito mais maduro que em Portugal—e pouco depois saiu o ChatGPT. André viu ali uma oportunidade óbvia e apresentou um chatbot jurídico num hackathon em Coimbra. O feedback foi suficiente para ele perceber que isto valia a pena explorar, mas também que um GPT jurídico genérico não bastava. Decidiu então tirar uma pós-graduação em Direito para entender de verdade o mercado.

A decisão mais importante veio depois. André e o co-founder estavam a trabalhar em smart farming para agricultura regenerativa—tinham até aprovação do PRR. Mas perceberam que não havia mercado. A oportunidade da ByTheLaw começava a surgir, parecia muito maior, e desistiram do projeto anterior. Não foi um fracasso estrondoso, apenas um teste de mercado que falhou; viram que não havia procura suficiente e pivotaram.

Para construir o produto certo, André fez o que Dan Bebola sugeriu numa entrevista: passou seis meses dentro de um escritório de advogados a observar e aprender. Conseguiu uma parceria com a Servo (uma das maiores firmas do país) através de um contacto que se tornou mais tarde investidor. Lá dentro, viu o problema real que ninguém estava a resolver: knowledge management. Os advogados lidam com versões infinitas de contratos ("final_final_final"), documentos espalhados por sistemas heterogéneos, e não conseguem reutilizar o conhecimento anterior. O legal tech existente foca em contract drafting e legal research, mas ignora esta dor.

O produto que têm hoje não é um chatbot jurídico—é um motor interno de pesquisa e gestão de documentos. A ideia é simples: um advogado tem um caso novo, consegue perguntar ao sistema quais são os casos semelhantes que já foram resolvidos, encontra aquilo que precisa sem navegar por pastas e pastinhas. Há todo um trabalho de limpeza e organização automática de dados por trás, porque os dados legais são altamente não-estruturados—contratos em PDF, jurisprudência pública, legislação, doutrina, até pareceres de organismos reguladores. Os LLMs ajudam a estruturar isto, mas a qualidade é crítica; por isso, o setup com clientes novos ainda é semi-manual.

Um desafio real agora é contratar talento. São quatro pessoas (três co-founders). A região de Lisboa tem salários altos em tech—4 mil euros por mês não é raro—e é difícil convencer engenheiros talentosos a arriscar numa startup. André até pensou numa alternativa: criar um programa para empresas lançarem desafios técnicos reais aos alunos da faculdade, pagando prémios ou contratos se o trabalho valer. Mas isso exigiria suporte das universidades, que têm incentivos complexos.

André acredita que a vantagem verdadeira é o acesso a dados. Programação tem modelos de base muito melhores porque há cultura open source, repositórios públicos, entreajuda. Direito é o oposto: advogados guardam contratos como segredo de negócio, livros jurídicos são pagos. Isto torna mais difícil que um LLM genérico funcione bem para legal tech, mas cria uma oportunidade: a cada cliente que on-boarding, o sistema fica melhor. Esse efeito de compounding—dados proprietários que ninguém mais tem—é exatamente o tipo de activo que empresas como a LexisNexis procuram comprar.

O maior aprendizado é que na advocacy, como em qualquer consultoria sofisticada, a dinâmica entre engenheiros e advogados é muito difícil. Não é só um problema técnico; é de requisitos, de comunicação, de incentivos. André cercou-se de pessoas muito melhores—um mentor que é dos maiores especialistas de legal tech no mundo, mentores que o ajudaram a entender que o produto é a experiência, não apenas a funcionalidade.


Neste episódio de Founder Tales trazemos o André Dionísio, um dos fundadores da ByTheLaw, a startup portuguesa de legaltech que lançou, em 2024, uma plataforma de pesquisa jurídica inteligente alimentada por Inteligência Artificial, com sede em Lisboa.

A ByTheLaw permite que juristas e empresas acessem legislação e precedentes judiciais de forma ágil, eliminando buscas manuais demoradas e entregando respostas fundamentadas em fontes oficiais da UE e de Portugal em segundos .

O André idealizou o projeto ao lado de António Rodrigues e João Cabral Pinto, e atualmente dedica-se a aprimorar os algoritmos de IA e a estratégia de produto, garantindo que a plataforma esteja sempre atualizada e alinhada às necessidades cotidianas dos profissionais do direito.

Ao longo da conversa, exploramos a gênese da ByTheLaw: como surgiu a ideia de criar um “ChatGPT jurídico”, os desafios de montar uma equipe multidisciplinar (tecnologia e direito), e o processo de captação de recursos para expandir a plataforma em Portugal e na União Europeia  . Falamos também sobre o piloto realizado em ambiente real, numa firma de advogados.

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