Médicos a usar o ChatGPT, certo ou errado?
com Tomás Pessoa e Costa, Dermatologista, founder e CEO da Dioscope
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Sobre esta conversa
Tomás é médico dermatologista, ainda exerce uma tarde por semana no SNS, mas dedica-se à direção da Dioscope, uma plataforma de formação pós-graduada para médicos. Começou há mais de uma década como um projeto de raiz — banco de questões para exames de especialidade — e evoluiu para um ecossistema que inclui videoaulas, protocolos clínicos e agora assistentes virtuais baseados em IA.
O ponto de partida foi concreto: a frustração com os cursos presenciais de preparação para o exame nacional de especialidade, que privilegiavam quem morava perto de Lisboa, Porto ou Coimbra. Quando a oferta nacional de cursos em vídeo não existia, Tomás comprou um banco de perguntas a um colega por cinco mil euros e lançou a primeira versão do que se tornaria Dioscope. Uma decisão que o próprio questionou durante anos.
A Dioscope atual funciona segundo uma mecânica inusual: os médicos não pagam, os hospitais não pagam, e a plataforma nunca recebeu investimento de venture capital. Em vez disso, financia-se através de parcerias com a indústria farmacêutica, fundações de impacto social e, recentemente, fundos europeus. O argumento é simples: se os médicos decidem melhor — diagnosticam bem, prescrevem segundo guidelines atualizadas — o sistema ganha. As farmacêuticas ganham porque a adoção de boas práticas clínicas é mais rápida; os hospitais ganham porque reduzem sobrecarga administrativa; os doentes ganham porque vivem melhor. Tomás chama-lhe "jogar ao monopólio": todos os atores conseguem o que querem, ninguém quer sair.
A questão do viés potencial — formação financiada por quem vende medicamentos — é respondida de duas formas. Uma: são médicos respeitados que coordenam cada área, e seria implausível que vendessem credibilidade. Dois: a Dioscope trabalha com quase todas as farmacêuticas grandes, logo não haveria razão para favorecer uma. O trabalho é comunicar guidelines mais recentes, não promover produtos específicos. A IA entra aqui como acelerador: um médico coordenador pode gerar casos clínicos de treino em minutos, em vez de meses, porque o assistente clínico escreve primeiro e o médico apenas valida e edita.
Na expansão internacional, Tomás é realista. O sistema médico português é pequeno e estruturado, permite experimentar rápido. No Brasil ou Espanha, há concorrentes muito maiores. A resposta não é competir de frente, mas entrar por uma feature — as videoaulas, o banco de questões, o assistente clínico — a preço mais acessível, aproveitando o que a IA faz bem: resumos, análise de guidelines, geração de cenários clínicos.
O conselho que Tomás gostava de ter recebido era mais simples: começar. Mesmo com incerteza, mesmo com uma tarde por semana de clínica, mesmo com cinco mil euros. Não se precisava de largar tudo — ele não largou — mas tinha de se tentar. O resto é trabalho, muito trabalho, e depois perspectiva.
Tomás Pessoa e Costa é dermatologista, fundador e CEO da Dioscope, uma empresa de formação médica digital. Começou há sete anos com um banco de perguntas para o exame de acesso à especialidade, comprado por cinco mil euros ao pai, e hoje trabalha com mais de 400 médicos em Portugal, preparando-se para escalar para Espanha e Itália.
Neste episódio, discutimos a utilização de inteligência artificial em medicina — e porque é que um chatbot não é (ou não deveria ser) um medical device. Tomás defende que a IA aplicada à saúde não pode ter dois pesos e duas medidas: se o Google Search não é regulado como dispositivo médico, uma ferramenta como o OpenEvidence também não deveria ser. A questão muda quando o sistema recolhe dados, faz sugestões ou toma decisões sem intervenção humana. Também falámos do modelo de negócio da Dioscope — que não cobra aos médicos nem aos hospitais, mas trabalha com farmacêuticas e fundações para financiar formação gratuita — e de como a IA permite agora criar conteúdo formativo em semanas, não meses.
É uma conversa concreta sobre o futuro da medicina, regulação, dados hospitalares e sobre ter coragem de fazer, mesmo a part-time e com recursos limitados.
Capítulos
0:00 Intro
1:08 Um chatbot é um medical device?
4:54 Quando a IA toma decisões sozinha
8:33 Médicos juniors dependentes de IA?
11:46 De dermatologista a fundador
18:43 Como funciona a Dioscope
26:26 O risco do viés no modelo de negócio
34:50 Escalar para Espanha e Itália
38:10 O futuro da IA na medicina
42:11 O conselho: façam