O que é uma Zona Livre Tecnológica?
com Luís Barbosa, Diretor-geral do PCI — Parque de Ciência e Inovação (Aveiro)
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Sobre esta conversa
Luís é diretor-geral do Parque de Ciência e Inovação de Aveiro, uma empresa gerida como startup mas com acionista maioritário público (universidade) e parceiros corporativos. Vem de uma carreira em Portugal, Ásia e Singapura, onde trabalhou em inovação e tecnologia antes de assumir este papel em 2024.
O PCI nasceu de uma decisão fundamental: não ser um "agente imobiliário" que apenas aluga espaço. A receita vem de serviços técnicos prestados a empresas corporativas e PMEs — desde simulação digital a testes de protótipos — e depois essa expertise alimenta o apoio às startups do parque. O PCI tem cerca de 50 empresas incubadas, muitas na área de deep tech, defesa e inovação ambiental.
Uma decisão polómica: o PCI recusa participação em equity das empresas que incuba. Luís defende que seria conflito de interesse — ou apoia todas as empresas com igualdade ou favorece as que mais rentabilizam. A estrutura acionista pública torna isso impraticável. Em vez disso, o parque fornece mentoria, acesso a infraestrutura tecnológica (incluindo um centro de digital twin único no sul da Europa) e ajuda as startups a entrar em consórcios europeus que financiam inovação.
Portugal tem cerca de 146 incubadoras. A pergunta que Luís coloca é provocadora: será melhor ter três polos especializados e de excelência — Aveiro em deep tech, por exemplo — do que dispersar recursos? A vantagem seria criar uma gravidade tal que qualquer founder naquele setor não conseguisse ignorar o lugar. O PCI já está a tentar reter empresas em escala com projetos de "centros de excelência" em microeletrónica e fotónica, oferecendo edifícios e ecossistema para que não saiam da região.
A zona livre tecnológica de Aveiro (homologada em 2025) é outro diferenciador: permite testes de protótipos terrestres, aéreos, submarinos e marítimos sem as restrições regulatórias normais — atrai startups de defesa e dual-use de toda a Europa e além. Luís trabalha como avaliador em programas europeus de financiamento (Fundo Europeu de Defesa, programa EDIP) e vê neles uma ferramenta crucial — ainda que imperfeita — para direcionar inovação. Reconhece que o sul da Europa tem taxas de sucesso inferiores ao norte em acesso a financiamento europeu, e que há muito a aprender com a velocidade de execução asiática, mas defende que a Europa tem algo que a Ásia não prioriza: ética estruturada em tecnologia disruptiva.
Que Portugal consegue ter três polos de inovação especializados — e que vale a pena fazê-lo — é uma tese que o PCI está a testar na prática.
Luís Barbosa dirige o PCI — Parque de Ciência e Inovação de Aveiro, uma empresa detida maioritariamente pela Universidade de Aveiro mas gerida como startup. Ao contrário de muitas incubadoras, o PCI não toma equity nas empresas nem direitos sobre patentes. Em vez disso, construiu infraestrutura tecnológica própria — digital twins, simulação, zona livre tecnológica (ZLT) — para apoiar startups deep tech desde a ideia até à industrialização, sem custos nas fases iniciais.
Nesta conversa, Luís explica como o parque se sustenta desenvolvendo projetos para PME e corporates, verticalizando competências em microeletrónica, defesa e mobilidade autónoma. Fala do papel dos fundos europeus, da experiência como júri do European Investment Council, e de como a Europa pode reter talento focando-se em menos setores estratégicos — e olhando mais para África. Partilha também o contraste entre a velocidade asiática, onde decisões são executadas antes de serem revertidas, e a abordagem europeia assente em ética e sustentabilidade.
Uma visão prática sobre o que um ecossistema regional de inovação pode fazer quando vai além de alugar secretárias.
Capítulos
0:00 Intro
1:16 O que é o PCI e como se financia
4:34 Infraestrutura tecnológica própria ou serviços externos
6:42 Quem procura o PCI e o papel das test beds
8:06 Zona livre tecnológica — testes terrestres, aéreos e submarinos
13:00 Diferenças entre gerir uma empresa universitária e uma corporate
15:36 Equity nas startups — porquê não
18:35 Setores estratégicos e a aposta em deep tech
24:49 Atrair multinacionais e reter empresas maduras
35:34 Júri europeu e o European Defense Industrial Program
50:23 Singapura, velocidade asiática e burocracia zero
54:45 O que Portugal deve focar e o potencial de África