Transformou uma doença rara numa startup
com Andreia Trigo, Co-fundadora e CEO da Enhanced Fertility
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Sobre esta conversa
Andrea é enfermeira portuguesa de formação, especialista em anestesia que se mudou para o Reino Unido em 2012 e criou duas empresas — uma de simulação clínica com 11 anos e agora a Enhanced Fertility. O problema pessoal que a move é real: diagnosticada tardiamente com síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser (ausência congénita de útero), passou por anos de testes inconclusivos até descobrir aos 17 anos que nunca poderia ser mãe biologicamente.
A experiência pessoal cruzou-se com a profissional quando, enquanto enfermeira em hospitais europeus, começou a notar um padrão: mulheres com síndrome do ovário poliquístico ou endometriose esperavam 9 anos pelo diagnóstico. Condições com critérios claros de diagnóstico demoram anos porque os sistemas hospitalares estão fragmentados, os médicos não têm acesso a guidelines atualizadas (a do síndrome do ovário poliquístico tem 5 mil páginas) e não há coordenação entre profissionais. Entre os 30 e os 35 anos, a fertilidade feminina começa a declinar significativamente — cada mês conta.
Em 2016, Andrea decidiu que queria transformar esse desafio numa solução. Passou cinco anos a validar a ideia em paralelo com trabalho clínico, juntou-se a aceleradores de universidades britânicas e apenas em 2021, com investimento do Startup Bootcamp, formalizou a empresa no Reino Unido. O primeiro produto foi um questionário clínico gratuito que permitia às pessoas aceder a informação personalizada, depois testes hormonais e de esperma feitos em casa — um detalhe importante num mercado em que fazer estes testes tradicionalmente exige idas ao médico e custos associados.
O grande pivô aconteceu há seis meses. Andrea percebeu que a verdadeira oportunidade não era só nos testes, mas em automatizar toda a operação das clínicas com agentes de inteligência artificial. A coordenação de um tratamento de fertilidade é complexa porque depende de ciclos menstruais — um teste pode ter de ser feito hoje, outro amanhã. Enhanced Fertility desenvolveu uma plataforma proprietária que se integra com os sistemas existentes das clínicas e cria "flows" personalizados: um agente para o chatbot do site, outro para a receção, outro para as coordenadoras, outro para médicos e enfermeiros. Cada clínica é diferente; a validação começa com entrevistas para encontrar onde estão os gargalos reais (alguns têm fila de chamadas, outros passam horas a ligar para seguradoras).
A empresa tem agora 9 pessoas. Frank, marido de Andrea e co-fundador, cuida da tecnologia; ela da parte clínica. Trabalham 60 a 70 horas por semana juntos, mas dividem decisões e equipas para manter clareza. Andrea é empreendedora de coração — tem sete empresas no total, mas Enhanced Fertility é aquela onde coloca toda a energia. Até agora, 38 bebés já nasceram através de clínicas que usam a plataforma; há um sino no escritório de Lisboa que toca cada vez que há um nascimento.
A entrada na Europa foi brutal. Ao contrário do Reino Unido e Estados Unidos, os profissionais de saúde europeus desconfiam de inovação. Andrea continua a colaborar com o SNS português e acredita que a tecnologia pode tornar o tratamento de fertilidade mais barato — um ciclo custa entre 15 mil euros (e as mulheres precisam em média de três tentativas para conseguir gravidez). Um conselho que gostava de ter tido no início: validar continuamente a ideia, porque uma startup muta a cada seis meses. Uma empresa anterior sua falhou porque começou a construir o produto final em vez do mínimo viável.
Andreia Trigo é co-fundadora e CEO da Enhanced Fertility, uma empresa que começou por atacar o problema do diagnóstico lento em saúde reprodutiva e evoluiu para uma plataforma que automatiza toda a operação de clínicas de fertilidade — da marcação ao follow-up pós-parto. O percurso de Andreia começa com uma experiência pessoal brutal: diagnosticada aos 17 anos com uma condição rara após anos de hesitação médica, percebeu enquanto enfermeira que o mesmo atraso se repete em doenças comuns como endometriose (nove anos até diagnóstico).
Depois de fundar sete empresas — incluindo uma de formação médica no Reino Unido —, Andreia lançou a Enhanced Fertility em 2021. O produto começou como educação e testes em casa, mas esbarrou na resistência europeia à inovação. O pivot recente levou a empresa a construir agentes de IA que fazem tudo: atendem chamadas, validam seguros, alertam médicos, preparam pacientes para tratamentos sensíveis ao tempo. Hoje trabalham com clínicas na Europa e no Reino Unido, com 38 bebés nascidos graças à plataforma.
Uma conversa sobre construir produto em saúde, empreender em casal, e transformar trauma pessoal em impacto escalável.
Capítulos
0:00 Intro
1:01 Diagnóstico aos 17 anos
3:35 Por que demora tanto tempo
6:23 A ideia de Enhanced Fertility
10:15 O que é a plataforma hoje
14:48 De enfermeira a fundadora
21:17 Entrar na Europa e o choque regulatório
24:45 O pivot para agentes de IA
30:10 Clínicas privadas vs públicas
34:30 Co-fundar com o marido
41:25 Congelar ovócitos vs esperma
48:29 38 bebés nascidos